Ménage à trois" ou simplesmente "ménage" é uma expressão de origem francesa que significa "mistura a três" e é utilizada para designar os relacionamentos sexuais entre três pessoas.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Os gays e os homens delicados


Crônica de LUIZ MOTT

Outro dia, um casal de meia idade, ambos ultra simpáticos e sorridentes, e com o qual havia convivido amigavelmente durante uma semana num congresso internacional em Salamanca, me segredou a esposa que eu era o primeiro gay que me dava assim tão bem com seu marido, pois a maioria dos alunos gays não costumavam gostar dele, embora fossem muito amigos dela. Esta observação fez-me pensar por que muitos gays não gostam dos enrustidos - pois o tal professor tinha tudo para ser gay, embora seja heterossexual e viva feliz com sua mulher e duas filhas adolescentes.

A primeira constatação é que o "bichômetro" de muito gay ou não funciona bem ou vive avariado, pois quantas e quantas vezes a gente não se engana, jurando de pés juntos que fulano é homossexual - e não é, ou o contrário: tem certeza que sicrano não é gay, e a criatura dá mais que chuchu na serra… Um erro comum que a gente não se corrige é a idéia de que todo homem não muito macho, meio delicado, seja obrigatoriamente gay. Ledo engano!

Efeminação não é sinônimo de homossexualidade, do mesmo modo como "machidão" não eqüivale a heterossexualidade: há homens delicados que na hora do bem bom são garanhões retados e ao contrário, cabras malhados e durões que no leito viram donzelas que querem mesmo é engolir cobra.

Por que tantos gays são hostis a homens delicados? A primeira explicação seria porque a maioria de nós, homossexuais, gostamos de homem com H, temos no nosso imaginário, como homem ideal, de machão para cima: cabra macho hiperviril, homem peludo tipo urso, policial fardado e melhor ainda se for malhado - e como o efeminado é o oposto deste modelo ideal, muitos gays os desprezam a ponto de hostilizá-los. Inconscientemente, muitos estão desprezando à si próprios, não aceitando no íntimo seu lado mulher.

Acontece que de fato, muitos homens delicados são homossexuais enrustidos, que por medo ou oportunismo, não ousam se afirmar e assumir que gostam do mesmo sexo. Neste caso, quando o homem delicado se enquadra na categoria de gay clandestino, há uma razão politicamente um pouco menos imprópria que a anterior e que poderia explicar tal hostilidade: para quem é assumido, ou mais ou menos assumido, os gays que se mantêm no armário, usufruindo as delícias do homoerotismo apenas debaixo do pano, mas sem mostrar a cara, esta vivência clandestina da homossexualidade provoca desprezo e agressividade naqueles que se julgam "traídos" por estes oportunistas. Acusam-nos de covardes e alienados por não serem suficientemente "machos" para se assumir 24 horas por dia como bichas, deixando recair nas costas dos assumidos todo o ônus da defesa de nossas bandeiras.

Outra forma ainda mais criticável de oportunismo que pesa na crítica ou desprezo que os gays assumidos devotam aos "enrustidos" ou "incubados" é que para salvar sua própria pele e limpar a barra, criticam e chegam a agredir os homossexuais como estratégia para não levantar suspeita de que eles próprios pertencem a este grupo que tanto estigmatizam.

É muito comum os gays dizerem que são os "incubados" os que mais criam problemas e discriminam os gays, lésbicas e travestis - de um lado como encenação pública visando destruir as suspeitas de que eles próprios também são gays, do outro, como uma espécie de vingança para compensar sua frustração de viver sufocados dentro do armário, enquanto as bichas desvairadas vivem freneticamente o que eles não têm coragem de assumir.

Finalmente há quem justifique a hostilidade contra os homossexuais enrustidos e por extensão, aos homens delicados de quem se suspeita que sejam gays clandestinos, alegando que por disporem estes últimos geralmente menos tempo livre para paquerar e batalhar sexo, devido ao maior controle social a que são submetidos, por tal razão, seriam mais apressados em suas conquistas, atravessando as bichas, tentando roubar-lhes seus bofes, sem respeitar as regras do jogo.

Concordo que deve haver ética e etiqueta no trato entre homossexuais, e respeitar as conquistas alheias é uma das primeiras regras do bem viver, seja na cena gay, seja no mundo hetero. Afinal, Chê culi per tutti, "tem cu pra todo mundo", ensina com sabedoria um velho ditado italiano. E os apressadinhos que encontrem mais tempo, respeitando as conquistas alheias.

Eu pessoalmente, verdade seja dita, não costumo hostilizar os homens delicados, embora já tenha algumas vezes dado foras homéricos, ao abordar algum deles certíssimo que era gay, sem o ser, causando mal estar esta minha insensata presunção. Reconheço que meu "bichômetro" nunca foi infalível. Numa situação destas, quando a gente tem dúvida se a criatura em nossa frente é gay ou não, mesmo que tenha todos os atributos e desmunheque até mais que a gente, o melhor é agir com um pouco mais de delicadeza - sem ir de cara dizendo alto prá todo mundo ouvir: "diga aí amiga! Táboa santa?!" Uma simples brincadeirinha destas pode criar um clima de hostilidade e a criatura ficar sua inimiga. O melhor é moderar a tirania, ficar na sua, dar umas dicas do tipo jogar verde para colher maduro, mas não pressionar a criatura contra a parede, não tratá-la perante outras testemunhas como pertencente a nossa tribo, pois isto pode desarticular aquele homem delicado e em vez de ajudá-lo a um dia se assumir, vai afastá-lo ainda mais deste passo fundamental para si próprio, para nós e para o mundo, pois sair da gaveta faz bem prá saúde, evita morrer sufocado e ajuda a tornar o mundo mais verdadeiro e feliz. Concorda comigo ou não?

3 comentários:

  1. fantástico, precisão filosofal.

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  2. Gostei do seu comentário, não sou assumido, pois moro em cidade pequena, o que dificulta muito as coisas, também sou casado e tenho filhos. Mas nunca discriminei os assumidos, aliás tenho alguns amigos assumidos
    que não sabem que eu também sou.

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